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Lido em 2014

"Não posso remediar erros, se é que foram erros, cometidos por homens mortos antes que eu nascesse. Já tenho muito o que fazer para reparar os meus próprios erros, e não viverei o suficiente para vê-los todos reparados. Mas farei o que estiver ao meu alcance, enquanto eu viver."

Nota: 8

Escrito por Marion Zimmer Bradley, A senhoria da magia, é o primeiro dos quatro volumes que compõe As Brumas de Avalon e o que mais gosto nesta história é a decisão inovadora de contar a lendária história do Rei Artur, mas desta vez do ponto de vista feminino. Esta é portanto a história das mulheres que desempenharam um papel crucial nos acontecimentos. Recuperando os antigos cultos da Deusa, com as suas sacerdotisas e druidas, o imaginário criado por Marion Zimmer Bradley é fascinante e requer alguma paciência e concentração. Avalon não é light, é quase como se o leitor fosse também um iniciado nos mistérios da Deusa e de todos os deuses e como tal tivesse se suportar pacientemente os ritos de iniciação até deter o conhecimento que lhe permite ponderar com o seu próprio juízo cada situação. Começamos por conhecer Igraine e Gorlois, pais de Morgaine, Morgause, sua tia e futura rainha de Lot, e claro Viviane, a Senhora do Lago, a Grã-Sacerdotisa. Neste primeiro livro é-nos também apresentado Uther Pendragon, pai daquele que será responsável pela salvação da Bretanha, Arthur. Durante o primeiro volume acompanhamos a infância e adolescência de Morgaine, bem como a difícil formação de sacerdotisa. No final do livro descobrimos ainda a história por detrás da famosa Excalibur. 

Para além de relatar os acontecimentos políticos e religiosos que se encontram em conflito na Bretanha, a autora centra-se no papel das mulheres, nos casamentos arranjados, na medição de forças entre concepções diferentes relativamente ao peso que a mulher deve ter na sociedade. O Deus e a Deusa. 

O primeiro recomenda-se. Vamos então ao segundo volume da saga!

Visto em 2014

"We’re all traveling through time together, every day of our lives. All we can do is do our best to relish this remarkable ride."

Nota: 7

À primeira vista About time é uma comédia romântica com um pressuposto interessante, a possibilidade de voltar atrás no tempo e corrigir o que fazemos ao longo do caminho. Mas o que gostei verdadeiramente neste filme foi a mensagem principal, o aprender a ver o lado positivo e precioso da vida, sem necessidade de viver duas vezes. Vamos corrigindo à medida que progredimos, mas não devemos deixar que os momentos difíceis e as coisas negativas levem a melhor. Existem maus momentos que têm de ser vividos para sabermos dar valor às coisas boas. Para crescermos. E foi isso que de mais precioso retirei deste filme. Gostei de sentir que estava a observar uma família genuína, apesar de não o serem. De sentir que estava a observar algo precioso e único. O elenco é mesmo muito bom, senão fantástico. Comédia romântica? No sir. Much more than that. Este filme, tal como a vida, confirma que a beleza está nas coisas mais simples, nos pormenores mais insignificantes. 

Visto em 2014

"When you lose that cat that gave you the sound that nobody else could, it hurts. Hurts more than losing your woman."

Nota: 6

Cadillac Records conta como os blues conquistaram a América, abrindo caminho para géneros como o Rock and Roll e outros. É a história da Chess Records e todos os artistas famosos pelos quais foi responsável pelo lançamento, entre eles, Muddy Watters, Little Walter, Chuck Berry e Etta James. O filme mostra a fama nos melhores e nos piores momentos, o que é preciso fazer para a conquistar e o que acaba por acontecer quando estes talentosos artistas se deixam levar pelo seu lado mais negro. Os desempenhos musicais são memoráveis, entre os quais o famoso At last de Etta James, aqui cantado pela Beyonce. Um bom filme acerca da cultura musical afro-americana.

Thanks for being great Robin. Nothing but great. Always <3

Visto em 2014

“Everything want to be loved. Us sing and dance and holler, just trying to be loved.”

Nota: 7

The Color Purple é um filme de 1985 que não agradará com certeza a todos mas que a mim me comoveu pela grandeza deste amor entre irmãs, pela perseverança e força destas mulheres que aguentavam firmemente os abusos de pais, maridos, sogros e filhos. Especialmente a pobre Celie, papel desempenhado por Whoopi Goldberg, que aguentou como uma valente todos os maus tratos aos quais foi sujeita durante toda vida. Violada pelo pai, que mais tarde era afinal o padrasto, deu à luz dois filhos dos quais foi forçada a separar-se, sofreu abusos do marido a vida toda, mas mesmo assim encontrou sempre amor e paciência dentro de si. Para além dos abusos cometidos pela própria família, Celie é negra e portanto tem de suportar também o racismo e a crença idiota, mas comum na época, de que os negros são seres humanos de uma categoria inferior. Mas Celie nunca se tornou amarga ou intratável. E é esta força, comum a muitas pessoas que passaram por situações semelhantes, que comove e toca cá dentro, que a distingue e torna mais forte. Brilhantes desempenhos. Gostei especialmente de Whoopi, Margaret Avery e de uma jovem Oprah Winfrey. 

Lido em 2014

"Não pertenço à Abnegação ou à Audácia, nem mesmo aos Divergentes. Não pertenço ao Departamento, ao experimento ou à margem. Pertenço às pessoas que amo, e elas pertencem a mim. Elas, junto com o amor e a lealdade que eu lhes ofereço, formam a minha identidade muito mais do que qualquer palavra ou grupo jamais formará."

Nota: 9

E quando eu achava que esta trilogia não podia ser mais interessante eis que a autora revela o que está para lá da cidade, o que é afinal a cidade. Nada mais nada menos que uma experiência, manipulada e vigiada vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, durante gerações que se sucedem umas após as outras. Genial. É impossível não pensar em todas as dúvidas acerca do propósito da vida. O que somos afinal? Porque existimos? Seremos um produto de uma raça superior e mais inteligente? A questão do ADN é finalmente revelada e esta nova realidade consegue ser ainda mais interessante que a anterior. A experiência tem a oportunidade de se observar a si própria. Já nada parece ser verdadeiro ou fazer sentido. Os personagens principais têm de lutar com esta nova perspectiva e as suas alterações irreversíveis. Conhecer a verdade ou permanecer na ignorância? Até que ponto os meios justificam os fins? Quais são afinal os verdadeiros problemas? Como justificamos as acções de um ser humano? Como modificar o ser humano? É simplesmente genial como uma obra de ficção científica consegue tocar em tantos dos pontos que sempre incomodaram e inspiraram o ser humano. Cheguei ao final e a tristeza tomou conta de mim. Queria saber mais acerca deles. Queria que o final fosse diferente. Existem tantas questões por responder. Tanto que ficou por fazer. O que é bom acaba sempre demasiado depressa.

Lido em 2014

Nota: 9

Em Insurgente a Cidade atravessa uma caça às bruxas, as facções dividem-se em diferentes frentes, umas tentando dominar as outras, outras tentando apenas sobreviver sem grandes danos. Tudo aquilo que assegurava a ordem foi colocado em causa. Nunca foi tão perigoso ser um divergente como nos dias que correm. Tris já não é mais uma careta frágil e insegura, é uma jovem mulher, determinada e decidida mas que tenta descobrir se quer viver ou arriscar a vida até ao limite. O livro traz desenvolvimentos e revelações surpreendentes, entre as quais as múltiplas fontes de manipulação aos quais a população é sujeita. Afinal manter a população sob controlo tem um preço, insignificante para alguns, mas bastante alto para outros. A relação entre Tris e Quatro adquire mais interesse e complexidade. Surgem novas personagens e segredos intrigantes são revelados acerca de outras. Veronica Roth consegue manter o mesmo nível de adrenalina, a mesma dinâmica que mantém os leitores presos página após página. Esta não é uma sequela, é toda uma nova etapa na história deste povo. Afinal o que existe para lá da cidade? O que explica a sua existência? O que valida o sistema? Tão bom como o primeiro. Vamos ao terceiro volume!

Visto em 2014

Nota: 7

Depois de ler o livro não resisti a ver o filme. Sei que nenhuma adaptação será tão boa como o livro mas esta em particular deixou-me um pouco desiludida. Se por um lado a escolha do elenco foi muito bem conseguida, assim como os cenários e guarda-roupa, existem momentos que foram totalmente ocultados ou alterados cuja importância nunca deveria permitir que assim fosse. Faltou-lhes captar melhor a dureza dos treinos da Audácia, a escuridão do fosso, a complexidade do relacionamento entre Christina e Tris. Até o próprio relacionamento com o Quatro pareceu-me um normalíssimo amor de adolescentes, algo que facto é mas que não se limita a isso e não é importante por isso. Faltou também uma melhor explicação das facções, que é algo realmente interessante e que é muitíssimo bem explicado no livro, apesar da descrição ser breve. Gostei da Shailene Woodley e Theo James para os papéis de Tris e Quatro, assim como Zoe Kravitz para o papel de Christina. E apesar de achar que não foi das melhores adaptações que já vi, estou bastante curiosa para ver a segunda parte da trilogia em filme. 

Lido em 2014

"Acredito nos atos simples de bravura, na coragem que leva uma pessoa a se levantar em defesa da outra."

Nota: 9

Apesar de poder ser comparado a séries como The Hunger Games ou The Maze Runner, achei que este Divergente, escrito por Veronica Roth, vai muito para além da ficção cientifica e do fantástico. Cem anos após uma guerra terrível, Chicago é conhecida como a Cidade e está dividida em cinco facções. Nada se assemelha ao mundo como o conhecemos hoje. Toda a sociedade se organiza em torno das virtudes de cada um. Aos dezasseis anos cada pessoa deve fazer a sua escolha e decidir em que facção quer passar o resto da sua vida: Abnegação, Erudição, Audácia, Franqueza ou Amizade. Esta é uma escolha importante porque a facção escolhida virá sempre antes do sangue, isto é, da família. Quem não se encaixa neste sistema passa a pertencer aos sem-facção, o que não é de todo invejável ou apetecível. Até aqui a história fascina-nos pelo modelo de realidade distinto do nosso, mas começa a ficar verdadeiramente interessante quando descobrimos que Beatrice, a personagem principal, obtém um resultado intrigante no seu teste de aptidão. Ela não pertence a uma nem duas, mas a três facções. Ela é uma divergente, e isso é perigoso. Devorei o livro em poucas horas, fascinada pela iniciação aos quais se sujeitam os membros da Audácia, às regras e costumes desta civilização tão distinta. Os detalhes que caracterizam cada uma destas divisões torna tudo mais real, mais palpável e complexo. Não existem momentos mortos nem insignificantes e o livro culmina no clima de mudança que se sente na cidade. Há uma facção que tenta dominar as restantes e a forma como o faz é surpreendente. Mais que ficção cientifica este é um livro sobre o ser humano e as suas tentativas incessantes e infrutíferas de encontrar um sistema no qual todos possam viver em paz e alcançar a felicidade. Muito, mas mesmo muito bom. 

No matter how quiet and conformist a person’s life seems, there’s always a time in the past when they reached an impasse. A time when they went a little crazy. I guess people need that sort of stage in their lives.

Lido em 2014

“No one believes more firmly than Comrade Napoleon that all animals are equal. He would be only too happy to let you make your decisions for yourselves. But sometimes you might make the wrong decisions, comrades, and then where should we be?” 

Nota: 8

Em Animal Farm George Orwell faz uma analogia brilhante entre o que aconteceu em muitos países comunistas e uma quinta onde os animais decidem levar a cabo uma revolução contra os humanos. Sobre o princípio da liberdade e da igualdade, a comunidade animal estabelece o Animalismo, ideologia segundo a qual todos os animais estão em pé de igualdade, todos trabalham de acordo com as suas capacidades e os louros do trabalho são divididos por todos de forma igualitária. Não faz sentido serem escravos do homem, ser que não produz apenas explora, e por isso revoltam-se e expulsam Jones, o dono da quinta que então se passa a chamar Animal Farm. Sob sete mandamentos fundamentais os animais trabalham para levar a quinta a bom porto e tornarem real o seu sonho de maior fartura e felicidade. Mas como aconteceu em todos os países onde o regime comunista acabou por se tornar um regime totalitário, todos os animais são iguais mas há animais mais iguais que outros. Os porcos, dotados de maior inteligência, começam a gerir as operações e pouco a pouco vão apoderando-se do domínio da quinta e dos animais, com recurso ao medo, à fome e aos sentimentos patrióticos. No final é impossível distinguir os porcos dos homens e até a velha máxima “quatro pernas bom, duas pernas mau” é colocada em causa, quando os porcos passam a caminhar sobre as duas patas traseiras. O autor consegue explicar as falhas dos regimes comunistas de uma forma tão simples quanto genial, trocando tudo por miúdos e reduzindo a ideologia e a sua aplicação prática ao mais elementar. Embora direccionado especificamente à União soviética, Animal Farm faz-nos pensar nas falhas inerentes às ideologias pensadas pelos homens. Haverá sempre uns mais iguais que outros, ou na verdade, uns mais ambiciosos que outros. E entre guerras, conquistas, mortos e feridos essa é uma cruz que todos, de uma forma ou de outra, acabamos por ter de carregar.

Lido em 2014

“The best thing, though, in that museum was that everything always stayed right where it was. Nobody’d move. You could go there a hundred thousand times, and that Eskimo would still be just finished catching those two fish, the birds would still be on their way south, the deers would still be drinking out of that water hole, with their pretty antlers and they’re pretty, skinny legs, and that squaw with the naked bosom would still be weaving that same blanket. Nobody’s be different. The only thing that would be different would be you.”

Nota: 7

The Catcher in the Rye ou Uma agulha num palheiro foi o primeiro romance publicado pelo americano J.D Salinger e um êxito imediato. O romance narra a história do adolescente Holden Caulfield, um jovem de dezassete anos vindo de uma abastada família nova-iorquina. Tudo é contado na primeira pessoa e um fim-de-semana na vida de Holden parece valer por uma vida. O livro centra-se principalmente nas tensões, conflitos e problemas da adolescência. No querer crescer mas não querer que as coisas mudem. Holden é claramente um adolescente perturbado pela morte do irmão, isso é evidente em vários momentos da história. Arrasta-se de escola em escola, interessando-se por tudo e por nada. O ritmo da narrativa é alucinante. É brilhante como o escritor consegue fazer-nos sentir dentro da mente de Holden, onde os pensamentos voam a mil à hora. Cenas reais são misturadas com pensamentos filosóficos, recordações, mentiras, visões de vida, aspectos aparentemente nada relevantes, curiosidades, entre tantas outras coisas. Holden certainly has a lot on his mind e isso é palpável. Este personagem principal é dos mais complexos e interessantes que já tive a oportunidade de conhecer. Gostei também da forma como o autor dá cor à narrativa, as expressões utilizadas dão um cunho muito próprio à personagem e ao contexto em que se insere. 

Ao pesquisar sobre o livro descobri que está envolto em circunstâncias um tanto ou quanto macabras:

- Mark David Chapman (quem matou John Lennon) parece ter-se inspirado no livro para cometer o crime;

- Também o homem que tentou matar Ronald Reagan afirmou o mesmo; 

- O assassino de Rebecca Shaeffer (modelo e estrela de televisão nos anos 80) também levava consigo o mesmo livro quando cometeu o crime. 

E como estas existem várias outras histórias. Que poderá isto dizer? Ter-se-ão identificado com o jovem perturbado Holden Caulfield? Terá o autor tocado num ponto fraco? Creepy but interesting! 

Um livro que vale a pena ler!

Visto em 2014

"We’re not going to fight them we’re going to transcend them."

Nota: 6

Transcendence parte de uma premissa que não é totalmente nova mas que é desenvolvida duma forma original. O assunto é a inteligência artificial, até onde podemos chegar, até onde devemos chegar. Até que ponto podemos transcender certos limites? Johnny Depp é Will Caster, um cientista brilhante que trabalha em conjunto com a mulher, Evelyn Caster, para desenvolver novas possibilidades no campo da inteligência artificial. Mas se o casal se deslumbra com as novas possibilidades, existem outros que não estão tão satisfeitos com cientistas que querem ser Deus. A história aborda também o quão dependentes estamos da internet, dos smartphones e outros dispositivos, de termos mais possibilidades de comunicação mas estarmos cada vez mais desligados do contacto com outros seres humanos. É um tema controverso e fracturante, mas não podia ser mais oportuno. Até aqui nada de novo. A novidade surge quando não falamos de robôs, mas sim de uma pessoa que consegue abandonar os limites físicos e viver na rede. Abandonados os limites antigos, há todo um novo mundo, triliões de possibilidades por explorar. As fronteiras esbatem-se e desaparecem. Como distinguir agora o que é certo e feito em prole da humanidade, e quais os limites que não podem ser cruzados? O filme é rico em efeitos especiais bem conseguidos, tem um bom elenco, mas faz-me falta um bocadinho mais de Johnny Depp. Ainda assim são óptimos os desempenhos de Rebecca Hall e Paul Bettany. Infelizmente o Morgan Freeman e o Cillian Murphy têm poucas hipóteses de brilhar. Ficou a faltar mais desenvolvimento acerca de um mundo sem internet. Tenho muita curiosidade em saber como seria se fossemos confrontados com esse cenário.