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Visto em 2014

On ne dit pas « au revoir » aux clients qui sortent de chez nous. On leur dit « adieu » puisqu’ils ne reviendront jamais.”

Nota: 8

Le Magasin des Suicides, uma animação de Patrice Leconte, é pura e simplesmente deliciosa. A historia foca-se na família Tuvache, que dirige uma invulgar loja de suicídios, isto é, um sítio onde é possível adquirir todo o tipo de ferramentas e auxiliares no acto de pôr termo à vida. Parece mórbido bem sei, e é, mas consegue falar-nos de coisas importantes como a individualidade que se esgota nas cidades cinzentas enquanto o desespero se apodera de nós, de um forma completamente refrescante e original. Há décadas que a família Tuvache gere esta respeitável casa, os filhos são carrancudos, os pais dotados dum delicioso humor negro. Mas este negócio de família sofre um abalo com a chegada do petit Alain, o único dos três filhos que tem a chamada joie de vivre. A ilustração é genial, bem como a complexidade dada a cada uma das personagens, tem um quê de musical sem entrar no modo Disney e é extremamente divertido. Se ainda não vos convenci vejam o trailer. O narrador é qualquer coisa! Merveilleux!

Piano Concerto No.23 A, K. 488 - Wolfgang Amadeus Mozart

Wonderful <3

Lido em 2014

Memórias, embustes, traições, homicídios, sermões de pastores evangélicos, crónicas de futebol, gastronomia, um inventário de sons, uma viagem de autocarro, as manhãs de Domingo, meteorologia, o Apocalipse, a Grande Pintura de 1990, o inferno, os pretos, os ciganos, os brancos das barracas, os retornados: a Humanidade inteira arde no Bairro Amélia.”

Nota: 9

As primeiras coisas, primeiro romance de Bruno Vieira de Amaral, é um regresso ao Bairro Amélia, bairro de retornados na Margem Sul, inspirado no Bairro do Fundo de Fomento, mas mais que isso um regresso às gentes, acontecimentos e costumes que são/foram as linhas e retalhos de tão singular tapeçaria. O escritor inventaria pessoas e acontecimentos, de forma metódica mas nem por isso convencional. Não é bonito, não é saudosista, embora às vezes também o seja, é o que foi, o que se disse ter sido. São factos, crendices, boatos. É a ligação aos lugares aos quais ficamos para sempre enraizados e às pessoas que os compõem. Achei-o cru, às vezes brutal, e gostei mais dele por isso. Porque capta a essência daquele lugar e daquelas pessoas de uma forma brilhante. Suja, feia, por vezes putrefacta, mas brilhante.

A história de Israel/Palestina/Canaã. Arrepiante.

Criadora: Nina Paley

Música: Andy Williams

Vistas em 2014 - 5ª e 6ª Temporada

Nota: 9

Não podia existir imagem mais apropriada para descrever a situação de Donald Draper na 5ª e na 6ª temporada, a nova agência quase vai por água abaixo, junta-se ao inimigo Ted Chaough, recupera Penny mas descobre que já não a domina nem inspira, casa-se mas depressa trai a mulher, que por sua vez é diferente de Betty e não está pelos ajustes, tem um caso com uma vizinha que é descoberto pela filha, deixando assim de inspirar respeito ou devoção, é incapaz de se mover sem ser a álcool, resolve ir do oito ao oitenta e revela segredos sobre a sua vida nos piores momentos, perde completamente o controlo nas situações mais inusitadas, o que lhe vale um cartão vermelho. Afastado da empresa, está agora de plantão em casa à espera de ser chamado. Quem diria que isto poderia acontecer ao poderoso D.Draper? Kudos para os argumentistas da série!

Visto em 2014

Nota: 5

Sooo Optimus Alive 2014.. Eu nunca tinha ido ao Optimus Alive, mas parecia-me uma coisa assim para lá de fenomenal. Não é fenomenal. É bom, mas não é fenomenal. O espaço é mais agradável que o do Rock in Rio, tem muito sítio onde comer e beber, está bem organizado, não há tanta correria aos brindes, nem tanta poeira mas os diversos artistas não foram propriamente colocados nos palcos acertados. A enorme variedade de artistas também faz com que seja praticamente impossível seguir decentemente os artistas que se quer ver. Mas pelo menos existe variedade. E qualidade.

Russian Red - Do pouco que ouvi gostei bastante, foi até mais animado do que previa.

Sam Smith - Surpreendeu-me bastante pela boa energia, pela empatia criada com o público e pelo facto de haver muita gente a cantarolar as letras do cantor que ficou mais conhecido depois da sua colaboração com os Disclosure e Naughty Boy. Sam Smith tem um vozeirão e transmite uma energia serena, sem tiques de estrela ou sensualão, faz-nos sentir em casa e desfrutar.

MGMT - Infelizmente os norte-americanos não foram suficientes para conquistar o entusiasmo do público, apresentando-se num registo acústico e bastante apagado. Tive muita pena, porque queria mesmo muito que tivesse sido espectacular. Na minha opinião tinham ficado melhor no palco secundário, com menos público, num ambiente mais intimista. 

The Black Keys - Outra banda que apesar de ser o grande cabeça de cartaz não cumpriu. Não estiveram mal, mas a sensação que tive foi que estar no concerto ou a ouvir o cd é exactamente a mesma coisa, ou pior, ouvir o cd é melhor porque consegue contagiar muito mais quem os ouve. Paragens longas entre músicas, onde as luzes se apagavam e não havia qualquer som ou interacção com o público, deram ao concerto o ar de soundcheck e cortaram por completo qualquer envolvimento que estivesse a estabelecer-se na música anterior.

Buraka Som Sistema - Os Buraka felizmente confirmaram a minha expectativa e deram um senhor concerto, com direito a temas novos e aos clássicos. Os músicos mantiveram o público atento, interagindo frequentemente, no seu registo completamente descontraído. Se isso funciona nuns momentos, já não acho que funciona tão bem noutros. A imagem dos Buraka é fortissima, os vídeos, as luzes, os efeitos especiais, tudo faz crer que estamos a ver uma banda internacional, mas depois momentos em que dezenas de miúdas invadem o palco tornam a coisa demasiado amadora e inestética. Eu sei que isto pode ser “a cena” deles, mas se fazia sentido noutros tempos não acho que faça agora, para além de contrastar totalmente com o cuidado colocado noutros aspectos. Nonetheless, o concerto de Buraka, a par com o de Sam Smith, foram para mim os melhores da noite, o que me fez sentir que o dinheiro do bilhete não tinha sido assim tão mal gasto. 

Outra coisa que me chamou a atenção, mas que não tem nada a ver com a organização e o festival em si, foi a enorme quantidade de adolescentes entediados que passavam os concertos a olhar para os smartphones com um ar aborrecido mas que no momento em que eram fotografados ou filmados pelos amigos para as redes sociais faziam umas poses muito rockeiras, de quem está a desfrutar pa caraças daquele mega evento (musical)social. Ainda me lembro do tempo em que o telemóvel num concerto servia apenas para ligarmos aos amigos que não tinham podido ir, para ouvirem aquela música especial. Chamem-me velhinha, mas tenho saudades desses tempos.

Stay with me - Sam Smith

Vista em 2014 - 3ª temporada

Nota: 7

Terminei finalmente a terceira temporada de Hart of Dixie que teve um final inesperado. George e Lavon a lutarem pela Lemon? A Cricket afinal é gay? A Lemon num cruzeiro de solteiros desesperados? E o que vai ser da Annabeth? Mais uma série que vai de férias. Damn you, silly season! 

and I shambled after as I’ve been doing all my life ater people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes “Awww!”
— 出典:On the road - Jack Kerouac

Lido em 2014

"Trevlyn lands and Trevlyn gold,Heir nor heiress e’er shall hold,Undisturbed, till, spite of rust,Truth is found in Trevlyn dust."

Nota: 6

The Mysterious Key and What it Opened é um conto de suspense escrito por Louisa May Alcott que nos conta a trágica história da família Trevlyn. Tudo começa quando Richard Trevlyn recebe um estranho em sua casa, estranho esse que lhe revela um segredo de tal ordem escabroso que Richard morre de um ataque de coração e a sua mulher fica encerrada num estado de penitência e apatia durante as décadas seguintes. A resposta ao enigma é encontrada apenas nas últimas páginas da história, o que garante o interesse do leitor até ao momento final. Os momentos de suspense ao longo do texto estão muito bem conseguidos. É uma história bem diferente d’As Mulherzinhas de Alcott, o que é totalmente refrescante. Fiquei a ansiar que fosse todo um romance ao invés de apenas um conto.

Vista em 2014 - 6ª temporada

Nota: 10

Tão tão tão mas tão boa está série! Terminada a temporada 6,venham as próximas!

There are infinite numbers between 0 and 1. There’s .1 and .12 and .112 and an infinite collection of others. Of course, there is a bigger infinite set of numbers between 0 and 2, or between 0 and a million. Some infinities are bigger than other infinities. A writer we used to like taught us that. There are days, many of them, when I resent the size of my unbounded set. I want more numbers than I’m likely to get, and God, I want more numbers for Augustus Waters than he got. But, Gus, my love, I cannot tell you how thankful I am for our little infinity. I wouldn’t trade it for the world. You gave me a forever within the numbered days, and I’m grateful.
— 出典:The fault in our stars - John Green

Lido em 2014

“You don’t get to choose if you get hurt in this world…but you do have some say in who hurts you. I like my choices.” 

Nota: 8

Já tinha ouvido falar do filme mas o que me despertou a atenção foram as críticas feitas ao livro. Foi alegria que constatei que tudo aquilo que se dizia acerca do livro não era de todo exagerado. Capaz de nos fazer rir ao mesmo tempo que nos faz chorar, John Green criou uma história maravilhosa, ainda que assente num caso muito triste.

The fault in our stars é a história de Hazel Lancaster, ou Hazel Grace como nos habituámos a chamá-la, uma adolescente que sofre de um cancro nos pulmões para o qual não há cura. Ela só pode resistir e limitar-se a “viver” enquanto a doença assim lhe permitir. O que é diferente nesta história, em comparação a outras semelhantes, é a forma como os doentes encaram a doença. Hazel fala das coisas de forma pura e dura, ela não é corajosa só porque tem cancro, não luta contra a doença, fá-lo porque não tem outra alternativa. Desde o início da história, a forma de encarar o problema é completamente diferente, e apela muitas vezes ao humor em situações que habitualmente não é socialmente aceitável que o façamos. E depois surge Augustus Waters. Acho que é difícil alguém permanecer indiferente ao personagem e à ligação entre os dois. Ambas as personagens são interessantíssimas, assim como os papéis secundários, a começar pelas famílias e o amigo comum Isaac. Os diálogos são maravilhosos e inesperados, e até a personagem de Peter Van Houten é completamente surpreendente. A coragem que o autor teve de derrubar esta figura quase mítica para Hazel e Gus é verdadeiramente refrescante. Não existem assuntos ou personagens infalivelmente boas. Não é tudo cor de rosa. Nem dramático. E no entanto é impossível não nos apaixonarmos pela história e pelos seus personagens. 

Estou muito curiosa para ver o filme, onde só sei que o papel de Hazel é desempenhado pela Shailene Woodley. Vamos lá ver se consegue ser tão bom nas cenas de ironia e de humor, como de certeza vai ser nas cenas dramáticas e românticas. Porque é isso que faz desta história algo único.

Visto em 2014

I told him to take the train. I told him to catch the BART. I didn’t know they were gonna hurt my baby. I should’ve just let him drive. I should’ve let him drive, but I wanted to keep him safe. You gotta let me hug him. Please, let me hug him. Please. Please! He didn’t like to be alone.”

Nota: 8

Fruitvale station é baseado na histórica verídica de Oscar Grant, um jovem de 22 anos morto pela polícia numa estação de comboios na Fruitvale Bay Area em Oakland, na Califórnia. 

O filme começa com um vídeo filmado através de um telemóvel, não sei se será um vídeo real ou não, do incidente que leva ao desfecho trágico da história. A história regride um dia. O último dia de 2008. Ficamos a saber que Oscar tem uma namorada, Sophina e uma filha adorável de quatro anos, Tatiana. Percebemos rapidamente que Oscar está a tentar encontrar um rumo na vida, esteve preso, foi despedido, quer deixar de vender droga. A forte relação com a sua mãe e o amor pela filha fazem-no tomar uma decisão. Ele é dado a conhecer como um pai, filho e amigo extremoso. As cenas entre pai e filha deixam transparecer o enorme afecto entre os dois. Chegamos então à véspera de ano novo. Wanda, a mãe de Oscar, insiste para que vão até à cidade de comboio, para que não conduzam embriagados. Oscar aceita e sai para fazer a festa com a namorada e um grupo de amigos. Tudo corre bem, excepto o regresso. Uma conhecida sua chama-o pelo nome, nome que os membros de um grupo de orientação racista ou neo-nazi (não chegamos a saber de facto) reconhece. Oscar tenta evitar o conflito mas é esmurrado. Os amigos correm para o defender. A carruagem pára para que a polícia possa intervir. E aqui sim começa o ponto verdadeiramente interessante e simultaneamente chocante desta história. Desde o primeiro momento os polícias detém apenas e unicamente homens negros, um por um vão sendo encostados contra a parede. Não procuram pelos rivais. Adoptam uma postura provocante e extremamente agressiva. No comboio os passageiros gritam ultrajados e filmam tudo com os telemóveis. Oscar tenta acalmar a situação, mas no momento em que se levanta para defender um amigo é empurrado para o chão, batem-lhe, pisam-lhe a cabeça, algemam-no, a certo ponto a coisa descontrola-se e um dos polícia dispara à queima-roupa Oscar que estava imobilizado e algemado no chão. Ele acabou por morrer. O polícia foi condenado por homicídio involuntário, mas acabou por ser absolvido porque declarou ter confundido o revólver com o taser, cumprindo uma pena de dois anos e acabando por sair por bom comportamento. A família de Oscar continua até hoje a lutar por justiça, que como todos infelizmente já sabemos, não está à disposição dos mais desfavorecidos. 

Durante o filme e principalmente na cena de conflito sente-se uma revolta enorme pela clara atitude de discriminação e diferença na forma de tratamento. A postura extremamente agressiva e provocante da polícia desde o primeiro momento. A certa altura um dos polícias cruza-se com o membro do grupo que provocou o confronto, mas não o vê, é branco, e ele está programado para encontrar outra cor. 

Discussões acerca de preconceitos à parte, a sensação de impunidade e injustiça foi o que mais me chocou neste filme. Um polícia atira à queima-roupa, sobre um homem imobilizado e algemado, mata-o e sai dois anos depois por alegar ter confundido a arma com o taser. Onde está a justiça disto? Quão seguras se devem sentir as populações quando alguém supostamente treinado e qualificado tem uma falha destas? Quando alguém no seu perfeito juízo decide disparar desta forma? As questões que se podem colocar são imensas e extremamente perturbadoras. Como idealista que sou, acredito que uma força de segurança serve para proteger os cidadãos e não para os atacar, que uma arma deve ser usada apenas como defesa e não como forma de ataque. A família de Oscar Grant perdeu um filho, um sobrinho, um primo, um marido, um pai. E não teve direito a justiça, que podia não trazer Oscar de volta, mas pelo menos condenava e punia o comportamento inconsequente da polícia.

O filme conta com um elenco praticamente desconhecido mas com óptimos desempenhos. A única estrela é Octavia Spencer, que como sempre esteve muito bem no seu papel. 

Lido em 2014

"Bueno, en el fondo yo sabía que ella no sería nunca una mujer normal. Y tampoco quería que lo fuese, porque lo que yo amaba en ella era también lo indómito e imprevisible de su personalidad"

Nota: 7

Travesuras de la niña mala de Mario Vargas Llosa é uma história de amor. Mas não é a típica história de amor, na verdade tem muito pouco em comum com os romances e paixões tantas vezes descritos na literatura. A história começa no Peru, no bairro de Miraflores, em Lima. O verão chega e com ele a adolescência e las chilenitas, duas desconhecidas que despertam a má lingua feminina e admiração masculina pela postura e hábitos liberais. É aí que Ricardo Somocurcio e a famosa chilenita se encontram pela primeira vez e formam uma ligação que vai perdurar durante toda a sua vida. Até aqui parece convencional? Mas não é. É que afinal a chilenita, não era de todo chilena e desaparece, durante anos, para renascer como outra pessoa, outro historial, outra postura. Algo que faz durante toda a sua vida. Renasce e redesenha-se. Ricardo reencontra-a em Paris, em Londres, em Tókio e finalmente em Madrid.  O amor de Ricardo não a comove, ela é fria, ambiciosa, quer dinheiro, quer viver com um homem tão rico que não tenha de se preocupar nunca mais. Mas Ricardo, o niño bueno, é apenas um tradutor/interprete, portanto está completamente fora de questão. As suas vidas vão alternando entre períodos de encontro e desencontro. Ela cada vez metida em piores alhadas, ele cada vez mais cansado das travessuras dela, mas sempre disposto a aceitá-la, a reconstruí-la, a amá-la. Porque não tem outra escolha. E foi isso que achei particularmente interessante neste livro, esta visão do amor, tão diferente da relação ideal, tão singular. E a total incompreensão por parte dos demais.

O livro tem como pano de fundo a história política do Peru, a revolução em Cuba, o Maio de 68, a época Hippie em Londres, o apogeu e declínio da cultura francesa ao longos tempos, entre outros, o que torna a passagem pela vida de Ricardo mais interessante mas também o sublinha enquanto personagem que não interfere, que não ambiciona, que não se relaciona com tudo o resto. Só com ela.

Também as personagens secundárias são extremamente interessantes e a sensação que tenho é Vargas Llosa não deixou nada ao acaso, todas têm um grande impacto na história e uma personalidade a acompanhar. 

É uma história e tanto.