ad me ipsum

Lido em 2014

”- O armário que vimos nas imagens? (..)
- Foi despachado…
- Despachado?
- É, despachado. Enviado. (…)
- Para o Reino Unido…
Todos engoliram em seco juntos.
Cada um com sua garganta, é claro”

Nota: 6

A extraordinária viagem do faquir que ficou preso em um armário IKEA (pausa para respirar) é um livro leve e fofo, como uma bolachinha de manteiga que cai sempre bem ao final da tarde. É a história de Ajatashatru, um faquir que viaja da India até França para comprar uma cama de pregos no IKEA. Pelo caminho acontecem-lhe as mais inusitadas peripécias e o faquir, que era na verdade um grande trafulha, tem uma espécie de change of heart quando se depara com pessoas amáveis como Marie, a francesa carente, ou o grupo de imigrantes ilegais que se sujeita às piores condições para conseguir uma vida um bocadinho melhor, ou Sophie Morceaux, a ingénua diva do cinema. Ajatashatru resolve então deixar de fazer falcatruas e passar a ser uma pessoa melhor, não sem antes enganar um cigano, ir até Inglaterra num armário do Ikea, ser recambiado para Barcelona e depois para Roma numa mala Louis Vuitton, entre outras peripécias que deixo por revelar, para não estragar o prazer de quem vai ler o livro. O estilo narrativo é de grande simplicidade e a comicidade está sempre presente. Fez-me lembrar muito o The one-hundred-year-old man who climbed out the window and disappeared do Jonas Jonasson, ainda que o exemplar sueco seja muito mais interessante e bem escrito. 

No geral é uma história gira que nos arranca umas valentes gargalhadas e cheia de momentos “awwww” :)

Lido em 2014

Nota: 9

Sempre que me falavam em ficção científica a reacção era: “hmmm, isso não é bem a minha cena.” Mas com base nos filmes e livros que tenho lido nos últimos tempos, começo a achar que não só é a minha cena como é capaz de ser mesmo, mesmo a minha cena! Perdoem-me a redundância mas isto é uma descoberta importante! A verdade é que a ficção científica permite explorar os limites mais ínfimos da imaginação, ao mesmo tempo que tem como base o ser humano, com todas as virtudes e defeitos. 

Posto este prólogo mais longo do que previa, como leitora/espectadora acérrima da Guerra dos Tronos, já sabia que o George R.R. Martin tinha escrito outras coisas mas este Wild Cards superou todas as minhas expectativas. 

Ora bem, Wild Cards é composto por vários volumes e foi escrito por vários autores (Melinda M.Snodgrass, Chris Claremont Roger Zelazny, entre outros) mas grande parte do trabalho de montagem e escrita foi feita pelo mestre. A história propõe uma alternativa ao que aconteceu a seguir à Segunda Guerra Mundial, e que alternativa! Em 1946, uma nave do planeta Takis aterra na Terra para nos salvar de um vírus criado pelos Takisianos que rescreve o ADN dos seres humanos. O ET bonzinho falha na sua missão e o vírus explode em Nova Iorque, contaminando milhões de pessoas. Para além daqueles que explodiram ou se desintegraram em contacto com o vírus, surgem duas novas espécies: os Ases (pessoas com super poderes) e os Jokers (mutantes). 

Ora portanto, o que aconteceu foi que o planeta Terra serviu de cobaia aos Takisianos, povo governando por famílias importantes e detentoras de super poderes que criaram o vírus como forma de aumentar as suas super capacidades. Como a coisa correu mal nas primeiras experiências, resolveram fazer testes na Terra. O vírus é indestrutível e passível de ser transferido de geração para geração, embora seja um gene recessivo. 

Para além das transformações estupidamente criativas, o livro explora a perseguição dos ases (analogia com os comunistas), a marginalização dos Jokers, o conservadorismo dos puros (aqueles que não foram contaminados). Existe até uma Jokertown, que é uma espécie de circo dos horrores misturado com terra do pecado.

Tal como acontece na Guerra dos Tronos, o autor não tem papas na língua e o livro é extremamente agressivo em certos momentos. Mas caramba, é um grande livro! 

Malkovich, Malkovich, Malkovich: Homage to photographic masters

Catherine Edelman Gallery

Visto em 2014 - Temporada 1 e 2

“People will sit up and take notice of you if you will sit up and take notice of what makes them sit up and take notice.”

Nota: 9

Mr.Selfridge é uma série britânica que se debruça sobre a vida e obra do magnata americano Harry Selfridge, o criador das famosas lojas Selfridge & Co. Não parece muito entusiasmante? Mas é. Harry Selfridge chega a Londres em 1909, com um conceito absolutamente único, as compras passam a ser feitas pelos patrões, comprar é quase uma actividade de lazer, toda a experiência tem de ser única e inesquecível. Para além do entusiasmo que sentimos ao vê-lo erguer este império, todas as histórias que complementam a história principal são interessantes e ricas. O elenco é de luxo. Jeremy Piven, Frances O’Connor, Katherine Kelly. Estou completamente apaixonada pela Miss Agnes Towler (Aisling Loftus) e o Mr. Henri Leclair (Grégory Fitoussi). Para além do lado profissional de cada um, a série explora ainda os dramas pessoais, as dificuldades da primeira grande guerra, o papel subserviente das mulheres, o preconceito com os comerciantes, a decadência da nobreza, etc. Tão, tão bom que agora vai ser mesmo difícil esperar pela terceira temporada! 

Visto em 2014 - Temporadas 1,2,3

Nota: 7

Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Hey girl, watch’a doing? 

Lido em 2014

“On the ride back south, she tapped all the anger-management tricks they’d given her in job training. They played across her windshield like PowerPoint slides. Number One: It’s not about you. Number Two: Your plan is not the world’s. Number Three: The mind can make a heaven of hell, a hell of heaven. ” 

Nota: 7

O Eco da Memória é a história de Mark Schlutter, um jovem do Nebraska que sofre um acidente brutal, Karin Schlutter, a irmã que entra em pânico quando este a acusa de ser uma impostora, e Gerald Weber, um famoso neurologista contactado para socorrer este complicado caso de Capgras. 

Confusos? Vamos por partes.

A verdade é que este livro é narrado pelos três protagonistas, alternando entre eles sem qualquer aviso prévio, entre o que está a acontecer no momento e simultaneamente dentro da mente de cada um deles. 

Mark Schlutter é um homem-rapaz do Nebraska, trabalha numa fábrica de carnes, joga videojogos o resto do tempo, acompanhado pelos amigos também não muito brilhantes. Certa noite tem um acidente de carro inexplicável, numa estrada deserta. Alguém anónimo pede socorro, Mark é levado para o hospital num estado quase irremediável. Na mesa de cabeceira é lhe deixado um bilhete enigmático. Karin voa para o hospital para mais uma vez resgatar o irmão (estamos prestes a descobrir que a família Schlutter é qualquer coisa) e acompanha-o nos meses seguintes. Mark recupera de forma miraculosa, o único senão - está convencido que Karin é uma impostora a fazer-se passar pela irmã e que foi envolvido numa conspiração levada a cabo pelo governo americano. Tudo lhe parece quase igual, mas não o é. Mudaram as pessoas, as casas, até a própria cadela. É aqui que chamam o Famoso Gerald, Gerald Weber um conceituado neurologista e autor. Mas este caso de Síndrome de Capgras desenrola-se de forma totalmente  imprevisível e sem precedentes.

Depois de nos habituarmos às constantes mudanças de narrador, o livro torna-se extremamente interessante, pecando apenas pelo uso exagerado de termos clínicos e portanto indecifráveis para um público leigo. 

Gostei particularmente do questionar constante das noções de eu, consciência e realidade, e também do paralelismo com as aves que também são protagonistas desta história. Recomendo.

Visto em 2014

Nota: 5

Quando li o The fault in our starts já sabia que existia o filme, já sabia que todos o descreviam como uma choradeira pegada, mas resisti e li o livro primeiro. E adorei, cada página. Com choradeira ou sem choradeira foi dos melhores livros que li este ano. Por isso as expectativas estavam altíssimas. Gostava da escolha para os actores principais. Tudo parecia encaminhar-se na direcção certa. Fiquei triste por verificar que o filme fica muito aquém do prometido. Apesar de haver uma boa dinâmica entre o par principal muito ficou por descrever, muito pormenores interessantes que fazem do livro uma obra diferente e interessante. Vou concluir pondo a coisa nos seguintes termos: o livro é interessante, hilariante e comovente, o filme é daqueles para se ver a comer pipocas ao domingo à tarde quando apetece ver uma coisa levezinha. 

Lido em 2014

Nota: 8

Com a leitura destes três livros completei a saga das Brumas de Avalon e o juízo final não poderia ser melhor. Marion Zimmer Bradley descreve com mestria a lenda do Rei Arthur e aquilo que se passou nos bastidores, devolvendo à mulher a importância que é sua por direito. Aconselho vivamente a todos os que se interessam pelo imaginário medieval e sobretudo pelo conceito de Deusa, mãe da natureza e dos homens. Muito mas mesmo muito bom. 

Lido em 2014

“ A essência de algo é invisível aos olhos, dizia U May. Aprenda a perceber a essência de algo. Os olhos podem mais prejudicar do que ajudar, nesse aspecto. Eles nos distraem. Adoramos nos deslumbrar.” 

Nota: 8

A arte de ouvir o coração à primeira vista pode ser confundido com um livro de auto-ajuda mas, ainda que contenha lições importantes, está longe de descrever uma série de passos obrigatórios para o sucesso e a auto realização. Esta obra escrita por Jan-Philipp Sendker é na verdade uma história maravilhosa sobre aprendermos a prestar atenção aquilo que realmente interessa. Não sei deixem enganar com um início que parece ter sido retirado de um romance policial pois à medida que vamos acompanhando Julia na procura do seu pai, a narrativa transforma-se e ganha novos protagonistas, Tin Win e Mi Mi, dois jovens peculiares, que descobrem como não ver ou andar só é um impeditivo para as mentes mais desprovidas da vontade de viver. O livro é composto por pequenos momentos simplesmente maravilhosos e brilhantes, como o momento em que Tin Win descobre que o coração de Mi Mi tem um bater único e inconfundível. Essa é a mais maravilhosa melodia que já ouviu e aquela que ouviria até ao final da vida, mesmo estando a milhares e milhares de quilómetros de distância. Porque a vida só tem sentido com sofrimento e com amor. E tudo o resto flui dessa mesma lição. Maravilhoso.

Lido em 2014

"Na adolescência, sonhamos com o dia que deixaremos os nossos pais, num outro dia são os nossos pais que nos deixam. Nessa altura, não sonhamos com mais nada senão em podermos voltar a ser, nem que seja por um instante, a criança que vivia sob o tecto dos nossos pais, tomá-los nos braços, dizer-lhes sem pudor que os amamos, apertá-los contra nós para que nos tranquilizem ainda mais uma vez."

Nota: 8

O ladrão de sombras é a história de menino com um dom fabuloso, a capacidade de conversar com as sombras das outras pessoas, de se colocar no lugar delas e compreender o porquê das suas atitudes e receios. Ao longo do livro acompanhamos parte da infância e crescimento do protagonista, até que ele se torna adulto, sem nunca deixar a sua sombra de rapaz para trás. É uma história maravilhosa e tocante de como nos entendemos e de como entendemos os outros. Os pais, os amigos, simples desconhecidos, encontros ocasionais, vizinhos, colegas. De como é crescer e ter de deixar a criança para trás, ter de estar presente no agora. A escrita surpreendentemente simples de Marc Levy reforça esta sensação de inocência, de ingenuidade, do amor simples e sentido. Foi o primeiro livro que li escrito por Marc Levy, mas não será certamente o último. 

Visto em 2014

I had wings once, and they were strong. But they were stolen from me.”

Nota: 7

O que me chamou a atenção neste Maleficent foi a participação de Angelina Jolie e o facto de ser um filme baseado no vilão e não no herói. O resultado não podia ser mais positivo e esta história, que sempre foi das menos interessantes da Disney, adquiriu outro encanto. Esta não é a história da Bela Adormecida, é a história da Maléfica, que afinal era a fada protectora de um mundo mágico e a quem o primeiro amor lhe roubou as asas juntamente com o coração. Para além de um mundo mágico maravilhoso, a Disney recria uma Maléfica magnífica, cheia de ironia e sentido de humor, uma vilã surpreendentemente maternal e protectora. E para fechar com chave de ouro, a moral da história que descreve uma verdade indiscutível no ser humano, o mundo não se divide entre heróis e vilões. Todos somos ao mesmo tempo uma e outra coisa. Altamente recomendado.

Lido em 2014

"Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.”

Nota: 9

A Desumanização de Valter Hugo Mãe foi talvez a coisa mais bela e simultaneamente mais triste que já li. Uma declaração de amor invulgar, a história de uma menina que perde a irmã gémea, as suas questões acerca da morte, da vida, do amor, do eu. Com palavras o autor pinta um dos quadros mais belos e emotivos que já tive oportunidade de testemunhar. Se a pintura se fizesse com palavras sem dúvida Valter Hugo Mãe seria o melhor dos pintores. Impressionante a capacidade de nos transportar para aquele ermo gelado e esquecido pelo mundo, para o interior daqueles gentes e dos seus estranhos costumes. A certo momento senti que também o monstro da tristeza se arrastava por mim a dentro e me consumia. Tudo neste livro é diferente do que estamos habituados e ainda assim tudo é tão profundamente humano e próximo. Estar vivo é difícil, por vezes é devastador, deprimente, mas Valter Hugo Mãe relembra-nos o quão maravilhoso pode ser, ainda que nem sempre tenhamos a capacidade de nos recordarmos disso. 

Lido em 2014

"Não posso remediar erros, se é que foram erros, cometidos por homens mortos antes que eu nascesse. Já tenho muito o que fazer para reparar os meus próprios erros, e não viverei o suficiente para vê-los todos reparados. Mas farei o que estiver ao meu alcance, enquanto eu viver."

Nota: 8

Escrito por Marion Zimmer Bradley, A senhoria da magia, é o primeiro dos quatro volumes que compõe As Brumas de Avalon e o que mais gosto nesta história é a decisão inovadora de contar a lendária história do Rei Artur, mas desta vez do ponto de vista feminino. Esta é portanto a história das mulheres que desempenharam um papel crucial nos acontecimentos. Recuperando os antigos cultos da Deusa, com as suas sacerdotisas e druidas, o imaginário criado por Marion Zimmer Bradley é fascinante e requer alguma paciência e concentração. Avalon não é light, é quase como se o leitor fosse também um iniciado nos mistérios da Deusa e de todos os deuses e como tal tivesse se suportar pacientemente os ritos de iniciação até deter o conhecimento que lhe permite ponderar com o seu próprio juízo cada situação. Começamos por conhecer Igraine e Gorlois, pais de Morgaine, Morgause, sua tia e futura rainha de Lot, e claro Viviane, a Senhora do Lago, a Grã-Sacerdotisa. Neste primeiro livro é-nos também apresentado Uther Pendragon, pai daquele que será responsável pela salvação da Bretanha, Arthur. Durante o primeiro volume acompanhamos a infância e adolescência de Morgaine, bem como a difícil formação de sacerdotisa. No final do livro descobrimos ainda a história por detrás da famosa Excalibur. 

Para além de relatar os acontecimentos políticos e religiosos que se encontram em conflito na Bretanha, a autora centra-se no papel das mulheres, nos casamentos arranjados, na medição de forças entre concepções diferentes relativamente ao peso que a mulher deve ter na sociedade. O Deus e a Deusa. 

O primeiro recomenda-se. Vamos então ao segundo volume da saga!