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Lido em 2014

"Descobri que é preciso escolher ter coragem todos os dias, como se escolhe a camisa que se vai vestir. Não é automático."

Nota: 7

Sarah Nelson tem 12 anos e dois problemas: 1. O verão entediante que a espera com os avós em Houston; 2. A árvore genealógica que terá de fazer quando entrar para o sétimo ano. 

Não são propriamente problemas, poderia comentar o observador menos informado acerca destas preocupações que são aparentemente típicas de uma jovem adolescente, não fosse Sarah Nelson filha de Jane Nelson, uma mãe que ficou conhecida por tentar matar os dois filhos gémeos com apenas dois anos de idade. À tentativa de afogamento pela própria mãe, só Sarah sobreviveu e Claros Sinais de Loucura debruça-se sobre o amadurecimento de alguém que teve de lidar com o julgamento da mãe, o julgamento do pai, que coitado foi acusado de não ter protegido os filhos o suficiente, com os jornalistas que os perseguem de cidade em cidade e com as outras pessoas que se julgam no direito de os julgar e apontar o dedo. 

Dito desta forma o livro parece pesado, mas surpreendentemente não o é. Karen Harrington, a autora, conseguiu criar uma personagem adorável, precoce, interessantíssima que sem deixar de parecer criança tem uma forma admirável de olhar para si e para os que a rodeiam. 

A vida de Sarah dá uma volta de 180 graus quando o seu professor de Inglês lhe propõe um trabalho para as férias: escrever, sem abreviaturas, a quem quer que seja, pessoas mortas ou vivas, fictícias ou reais. Tudo em troca de um iPod novinho em folha. Sarah, cuja melhor amiga é uma planta chamada Planta e que mantém dois diários, um real e um fictício, utiliza a escrita como forma de terapia. A sua escolha de destinatário é no mínimo interessante, Atticus Finch, que para quem não sabe é o pai de família em How to Kill a Mockingbird de Harper Lee (um dos meus livros favoritos). Porquê Atticus Finch? Porque Atticus representa o pai que Sarah gostava de ter, diferente do pai traumatizado e alcoólico, presente mas ausente que lhe restou depois da tragédia familiar. 

Sarah aprendeu a mentir, a não dizer aquelas que classifica como “palavras-problema”, a fugir e recomeçar a vida num novo lugar, mas nesta história cresce, apaixona-se, ganha coragem, abre asas e voa. Tudo com a honestidade e ingenuidade típicas de alguém da sua idade.

"A vida vale a pena quando você torce para ela não acabar."

Tão mas tão bom.

Amazing short-films, all with the same simple yet powerful message:

NATURE DOESN’T NEED PEOPLE. PEOPLE NEED NATURE.

Visit the website and find out more about it. 

Lido em 2014

"Minha cabeça não pára, tenho ideias a todo o momento e fico articulando formas de executá-las."

Nota: 10

Sketchbooks, as páginas desconhecidas de um processo criativo, compilado por Cezar de Almeida e Roger Basseto, reúne as opiniões sobre o processo criativo de Renato Alarcão, Alex Hornest, Amanda Grazini, Angeli, Arthur D’Araujo, Bruno Kurru, Carla Caffé, Cláudio Gil, Eduardo Berliner, Eduardo Recife, Elisa Sassi, Fernanda Guedes, Guto Lacaz, Huro Kawahara, Kako, Kiko Farkas, Leo Gibran, Lollo, Lourenço Mutarelli, Montalvo Machado, Mulheres Barbadas, Orlando, Rafael Grampá, Roger Cruz, Titi Freak e Yomar Augusto. 

Cada pequeno texto é acompanhado por uma série de ilustrações que custa a crer serem rascunhos, experiências. Cada uma destas “tentativas” é uma pequena maravilha por si só. E para quem como eu precisa disso como de ar para respirar, aconselho vivamente a compra do livro.

O meu foi me trazido do Brasil, mas creio que é possível encomendá-lo online.

Descubram mais sobre o projecto aqui.

Para quando uma versão com artistas portugueses?

Lido em 2014

"O ciúme não é um traço de caráter muito simpático, mas se tomamos cuidado para não abusar dele (se vem acompanhado de recato), ele tem, apesar de todos os inconvenientes, qualquer coisa de comovente."

Nota: 6

Rísiveis amores, escrito por Milan Kunderaé uma colecção de sete contos onde o amor e o sexo são postos à prova, retirados do contexto sério, ridicularizados. Há nele um constante jogo de gato e rato, de rejeição e aceitação, da descoberta do eu a partir do outro. O autor foca-se na intimidade que depressa se torna estranheza e faz-nos rir com momentos inusitados que se geram a partir das situações mais intimas. Não é de todo um’A insustentável leveza do ser mas é uma boa forma de olhar para as relações humanas e colocar certos aspectos em perspectiva. 

Before I die - Candy Chang on TED

Leiam sobre o projecto aqui.

Dá que pensar.

Visitado em 2014

André Saraiva no Mude Lisbon

Leiam mais sobre a exposição aqui

Lido em 2014

”- O armário que vimos nas imagens? (..)
- Foi despachado…
- Despachado?
- É, despachado. Enviado. (…)
- Para o Reino Unido…
Todos engoliram em seco juntos.
Cada um com sua garganta, é claro”

Nota: 6

A extraordinária viagem do faquir que ficou preso em um armário IKEA (pausa para respirar) é um livro leve e fofo, como uma bolachinha de manteiga que cai sempre bem ao final da tarde. É a história de Ajatashatru, um faquir que viaja da India até França para comprar uma cama de pregos no IKEA. Pelo caminho acontecem-lhe as mais inusitadas peripécias e o faquir, que era na verdade um grande trafulha, tem uma espécie de change of heart quando se depara com pessoas amáveis como Marie, a francesa carente, ou o grupo de imigrantes ilegais que se sujeita às piores condições para conseguir uma vida um bocadinho melhor, ou Sophie Morceaux, a ingénua diva do cinema. Ajatashatru resolve então deixar de fazer falcatruas e passar a ser uma pessoa melhor, não sem antes enganar um cigano, ir até Inglaterra num armário do Ikea, ser recambiado para Barcelona e depois para Roma numa mala Louis Vuitton, entre outras peripécias que deixo por revelar, para não estragar o prazer de quem vai ler o livro. O estilo narrativo é de grande simplicidade e a comicidade está sempre presente. Fez-me lembrar muito o The one-hundred-year-old man who climbed out the window and disappeared do Jonas Jonasson, ainda que o exemplar sueco seja muito mais interessante e bem escrito. 

No geral é uma história gira que nos arranca umas valentes gargalhadas e cheia de momentos “awwww” :)

Lido em 2014

Nota: 9

Sempre que me falavam em ficção científica a reacção era: “hmmm, isso não é bem a minha cena.” Mas com base nos filmes e livros que tenho lido nos últimos tempos, começo a achar que não só é a minha cena como é capaz de ser mesmo, mesmo a minha cena! Perdoem-me a redundância mas isto é uma descoberta importante! A verdade é que a ficção científica permite explorar os limites mais ínfimos da imaginação, ao mesmo tempo que tem como base o ser humano, com todas as virtudes e defeitos. 

Posto este prólogo mais longo do que previa, como leitora/espectadora acérrima da Guerra dos Tronos, já sabia que o George R.R. Martin tinha escrito outras coisas mas este Wild Cards superou todas as minhas expectativas. 

Ora bem, Wild Cards é composto por vários volumes e foi escrito por vários autores (Melinda M.Snodgrass, Chris Claremont Roger Zelazny, entre outros) mas grande parte do trabalho de montagem e escrita foi feita pelo mestre. A história propõe uma alternativa ao que aconteceu a seguir à Segunda Guerra Mundial, e que alternativa! Em 1946, uma nave do planeta Takis aterra na Terra para nos salvar de um vírus criado pelos Takisianos que rescreve o ADN dos seres humanos. O ET bonzinho falha na sua missão e o vírus explode em Nova Iorque, contaminando milhões de pessoas. Para além daqueles que explodiram ou se desintegraram em contacto com o vírus, surgem duas novas espécies: os Ases (pessoas com super poderes) e os Jokers (mutantes). 

Ora portanto, o que aconteceu foi que o planeta Terra serviu de cobaia aos Takisianos, povo governando por famílias importantes e detentoras de super poderes que criaram o vírus como forma de aumentar as suas super capacidades. Como a coisa correu mal nas primeiras experiências, resolveram fazer testes na Terra. O vírus é indestrutível e passível de ser transferido de geração para geração, embora seja um gene recessivo. 

Para além das transformações estupidamente criativas, o livro explora a perseguição dos ases (analogia com os comunistas), a marginalização dos Jokers, o conservadorismo dos puros (aqueles que não foram contaminados). Existe até uma Jokertown, que é uma espécie de circo dos horrores misturado com terra do pecado.

Tal como acontece na Guerra dos Tronos, o autor não tem papas na língua e o livro é extremamente agressivo em certos momentos. Mas caramba, é um grande livro! 

Malkovich, Malkovich, Malkovich: Homage to photographic masters

Catherine Edelman Gallery

Visto em 2014 - Temporada 1 e 2

“People will sit up and take notice of you if you will sit up and take notice of what makes them sit up and take notice.”

Nota: 9

Mr.Selfridge é uma série britânica que se debruça sobre a vida e obra do magnata americano Harry Selfridge, o criador das famosas lojas Selfridge & Co. Não parece muito entusiasmante? Mas é. Harry Selfridge chega a Londres em 1909, com um conceito absolutamente único, as compras passam a ser feitas pelos patrões, comprar é quase uma actividade de lazer, toda a experiência tem de ser única e inesquecível. Para além do entusiasmo que sentimos ao vê-lo erguer este império, todas as histórias que complementam a história principal são interessantes e ricas. O elenco é de luxo. Jeremy Piven, Frances O’Connor, Katherine Kelly. Estou completamente apaixonada pela Miss Agnes Towler (Aisling Loftus) e o Mr. Henri Leclair (Grégory Fitoussi). Para além do lado profissional de cada um, a série explora ainda os dramas pessoais, as dificuldades da primeira grande guerra, o papel subserviente das mulheres, o preconceito com os comerciantes, a decadência da nobreza, etc. Tão, tão bom que agora vai ser mesmo difícil esperar pela terceira temporada! 

Visto em 2014 - Temporadas 1,2,3

Nota: 7

Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Hey girl, watch’a doing? 

Lido em 2014

“On the ride back south, she tapped all the anger-management tricks they’d given her in job training. They played across her windshield like PowerPoint slides. Number One: It’s not about you. Number Two: Your plan is not the world’s. Number Three: The mind can make a heaven of hell, a hell of heaven. ” 

Nota: 7

O Eco da Memória é a história de Mark Schlutter, um jovem do Nebraska que sofre um acidente brutal, Karin Schlutter, a irmã que entra em pânico quando este a acusa de ser uma impostora, e Gerald Weber, um famoso neurologista contactado para socorrer este complicado caso de Capgras. 

Confusos? Vamos por partes.

A verdade é que este livro é narrado pelos três protagonistas, alternando entre eles sem qualquer aviso prévio, entre o que está a acontecer no momento e simultaneamente dentro da mente de cada um deles. 

Mark Schlutter é um homem-rapaz do Nebraska, trabalha numa fábrica de carnes, joga videojogos o resto do tempo, acompanhado pelos amigos também não muito brilhantes. Certa noite tem um acidente de carro inexplicável, numa estrada deserta. Alguém anónimo pede socorro, Mark é levado para o hospital num estado quase irremediável. Na mesa de cabeceira é lhe deixado um bilhete enigmático. Karin voa para o hospital para mais uma vez resgatar o irmão (estamos prestes a descobrir que a família Schlutter é qualquer coisa) e acompanha-o nos meses seguintes. Mark recupera de forma miraculosa, o único senão - está convencido que Karin é uma impostora a fazer-se passar pela irmã e que foi envolvido numa conspiração levada a cabo pelo governo americano. Tudo lhe parece quase igual, mas não o é. Mudaram as pessoas, as casas, até a própria cadela. É aqui que chamam o Famoso Gerald, Gerald Weber um conceituado neurologista e autor. Mas este caso de Síndrome de Capgras desenrola-se de forma totalmente  imprevisível e sem precedentes.

Depois de nos habituarmos às constantes mudanças de narrador, o livro torna-se extremamente interessante, pecando apenas pelo uso exagerado de termos clínicos e portanto indecifráveis para um público leigo. 

Gostei particularmente do questionar constante das noções de eu, consciência e realidade, e também do paralelismo com as aves que também são protagonistas desta história. Recomendo.